31.3.10

Era uma vez...

"Era uma vez....

um homem que estava a fazer um passeio turístico pela europa. Ao chegar ao reino unido, comprou no aeroportouma espécie de guia dos castelos e ilhas. Alguns tinham dias de visita e outros horários muito estritos. Mas o mais actractivo era o que se apresentava como " a visita da tua vida".Nas fotografias pelo menos, parecia um castelo nem mais nem menos espectacular do que os outros, mas era especialmente recomendado...explicavam que, por razoes que depois se compreenderiam, as visitas não eram pagas antecipadamente, mas tinha de se fazer a marcação, propondo dia e hora, com antecedencia. Intigrado com a diferença da proposta, o homem telefonou e combinou horário.
Em qualquer parte do mundo acontece o mesmo: basta que se tenha uma marcação importante, com hora precisa e necessidade de ser pontual, para que tudo se complique. Esta nao foi uma excepção, e o turista chegou ao palácio dez minutos mais tarde do que a hora marcada. Apresentou-se diante de um homem com saia de xadrez que o esperava e lhe deu as boas-vindas.
-Os outros já foram com o guia?- perguntou ele ao ver que estava sozinho.
-Os outros?-perguntou o homem- Não. As visitas são individuais e não temos guias.
Sem fazer qualquer menção ao horário, explicou-lhe um pouco da história do castelo e sugeriu-lhe algumas coisas a que deveria prestar uma atenção especial. As máquinas de guerra do Slao norte, debaixo das escadas, as catacumbas e a sala de tortura na masmorra. Dito isto, deu-lhe uma colher e pediu-lhe que a segurasse horizontalmente com a parte côncava virada para o tecto.
-Para que é isso? -perguntou o visitante.
- Nós não cobramos antecipadamente a visita. Para avaliar o custo do seu passeio, recorremos a este mecanismo. Cada visitante leva uma colher como esta cheia até cima de areia fina. Cabem aqui exactamente 100 gramas. Depois de percorrer o castelo, pesamos a areia que ficou na colher e cobramos uma libra por cada grama que tenha perdido...é uma maneira de avaliar o custo da limpeza-explicou.
- E se eu não perder nem um grama?
- Ah, meu caro senhor, então a sua visita ao castelo será gratuita.
Entre divertido e surpreendido com a proposta, o homem viu como o seu anfitrião enchia de areia a colher e começou logo a sua viagem. Confiando no seu pulso, subiu as escadas muito devagar e com o olhar fixo na colher. Ao chegar lá acima, á sala das armaduras, preferiu não entrar porque lhe pareceu que o vento faria voar a areia e decidiu descer cuidadosamente. Ao passar junto ao salão que exibia as máquinas de guerra, debaixo das escadas, deu-se conta de que para as ver com vagar era forçosamente necessário inclinar-se segurando-se ao parapeito. Não era perigoso para a sua integridade, mas faze-lo implicava de certeza derramar algum do conteudo da colher, por isso conformou-se em olhar para elas de longe. O mesmo se passou com a mais que inclinada escada que levava às masmorras. Pelo corredor de regresso ao ponto de partida, caminhou satisfeito em direcção ao homem com a saia escocesa, que o aguardava com a balança. Ali esvaziou o conteudo da sua colher e esperou o ditame do homem.
-Assombroso, perdeu menos de meio grama - anunciou. - Felicito-o, tal como o senhor previu, esta visita saiu-lhe gratuita.
-obrigado.
-gostou da visita? - perguntou finalmente o recepcionista.
O turista hesitou e por fim decidiu ser sincero.
- a verdade é que nao muito. Estava tão ocupado a tentar não entornar a areia que não tive oportunidade de olhar para o que o senhor me sugeriu.
- Mas...que disparate!Olhe, vou fazer uma excepção. Vou encher outra vez a colher, porque é a norma, mas agora esqueça-se de quanto vai derramar. Faltam 12 minutos para que chegue o próximo visitante. Vá e regresse antes que ele chegue.
Sem perder tempo, o homem pegou na colher e correu para a mansarda; ao chegar aí deu uma olhadela rápida ao que havia e desceu a correr para as masmorras, enchendo as escadas de areia. Não se demorou quase nada, porque os minutos passavam e vooou praticamente até à passagem debaixo das escadas, onde, ao inclinar-se para entrar, deixou cair a colher e derramou todo o seu conteudo. Olhou para o relógio, tinham passado 11 minutos. Ficou outra vez sem ver as máquinas e correu em direcção ao homem da entrada a quem entregou a colher vazia.
-Bom, desta vez sem areia, mas não se preocupe, temos um acordo. Que tal? Desfrutou da visita?
O visitante hesitou outra vez por uns momentos.
- A verdade é que não- respondeu por fim. - Estive tão preocupado em chegar antes do outro, que perdi toda a areia, mas voltei a não desfrutar de nada.
-O homem da saia acendeu o cachimbo e disse-lhe:

- Há os que percorrem o castelo da sua vida procurando que não lhes custe nada, e não conseguem desfrutar dele. Há outros que estão tão apressados em chegar rapidamente que perdem tudo sem o desfrutar. Alguns aprendem esta lição e demoram o tempo que julgam necessário em cada percurso. Descobrem e apreciam cada canto, cada passo. Sabem que não será gratuito, mas entendem que os custos de viver valem a pena.

1 comentário:

Sementinha do Mundo disse...

e eis que ainda me proferiram este lindo poema:

Ítaca

Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado — não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseidon em fúria — nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes o quanto possas.
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.

Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.

Konstantinos Kavafys / Tradução de Jorge de Sena